sábado, 20 de janeiro de 2007

A imprensa e Chávez

O que os jornalistas pensam de Chávez?
Do portal Comunique-se:

"Líderes dos países membros do Mercosul – e de outras nações da América do Sul – estiveram no Rio de Janeiro para participar da XXXII Cúpula de Chefes de Estado do bloco econômico, dias 18 e 19/01. E, atrás deles, jornalistas do Brasil e do mundo ansiosos pelo o que será acertado na reunião. Mas também dando atenção especial a um dos participantes do encontro: Hugo Rafael Chávez Frías.

O presidente venezuelano é hoje um dos principais personagens da política sul-americana, com decisões e influência que transbordam as fronteiras do país. Chávez dá prioridade estratégica à mídia, seja por formar redes de comunicação na Venezuela e fora dela, seja por sua postura com os jornalistas.

Carisma
"É evidente que ele adora dar entrevista", afirma Wilson Tosta, repórter do Estado de S. Paulo que seguiu Chávez desde sua chegada ao aeroporto na manhã de quinta-feira (18/01). "E sabe trabalhar a mídia. Tem noções de marketing. Falou com todo mundo que estava na porta do hotel. Quando ia entrando, alguém gritou ‘soy de Chile’. Ele deu meia-volta especialmente para falar com o sujeito. É um cara carismático", continua.

Rafael Coimbra, da GloboNews, já esteve com Chávez em quatro oportunidades, e conta que em todas as vezes o presidente venezuelano foi muito solícito. "Ele responde tudo, sem ser reticente. É bem articulado e sabe para onde conduzir a entrevista. Mas nunca no sentido de manipular", conta.

"Nesta relação, ninguém é santo: nem Chávez nem imprensa são ingênuos", aponta Carlos Tautz, jornalista brasileiro do canal latino-americano Telesur, sediado em Caracas. "A mídia usa até critérios cinematográficos, inclusive dramaticidade, para falar de Chávez. E ele lida bem com a fome da imprensa, sabe quando mandar uma frase de efeito, tipo 'socialismo ou morte'", explica, citando o pronunciamento de Chávez em sua posse.

"Ele tem muito carisma", afirma Ricardo Villa Verde, do jornal O Dia, que esteve pela primeira vez com Chávez durante a Cúpula. "Não sei como é lá dentro, mas aqui ele é bem acessível".

Lá dentro
As recentes decisões de Chávez de nacionalizar a maior empresa de telecomunicações da Venezuela e de não renovar a concessão da Radio Caracas Televisión (RCTV), que faz oposição ao seu governo, foram criticadas por entidades como os Repórteres sem Fronteiras e a Organização dos Estados Americanos (OEA). "Considero lamentável esse tipo de censura", diz Rafael Coimbra.

A repórter venezuelana Lourdes Zuazo, da Telesur, conta que a história é diferente. "Antes de mais nada, tem que ficar claro que não é um cancelamento, mas uma não-renovação. Alguns canais de oposição na Venezuela apoiaram o golpe de estado em 2002 [em que Chávez ficou 48 horas afastado do poder], e não agem de acordo com o estipulado no contrato de concessão", explica.

Tautz corrobora: "A edição manipulada da Globo no debate entre Lula e Collor em 1989 é brincadeira de criança perto do que é a TV na Venezuela. Pregam abertamente o golpe e não têm nenhum respeito pelo governo. Mas Chavéz foi reeleito por 63% dos votos. Ele tem amplo apoio popular".

Lourdes diz que a acessibilidade de Chávez dentro da Venezuela é bem próxima do que a relatada pelos jornalistas brasileiros. "Ele é sempre sincero. Às vezes, sincero demais. Chávez não fala em termos técnicos. Usa palavras que o povo entende, e que incomodam a oposição. Dizem que não é assim que deve ser portar um presidente", relata.

Telesur
A venezuelana é bem passional ao falar sobre a televisão em que trabalha. "A Telesur é o canal da integração. Não só pelo o que é transmitido, mas pela forma de se trabalhar. São jornalistas do mundo todo trabalhando pela cooperação e solidariedade", conta.

A Telesur foi proposta pelo próprio Hugo Chávez para rivalizar com canais jornalísticos voltados para o público latino, como CNN en Español e Univisión. Foi criada pelos governos da Venezuela – o principal acionista –, Argentina, Bolívia, Cuba e Uruguai, e tem em seu conselho editorial nomes como o Nobel da Paz argentino Adopho Pérez Esquivel, o jornalista paquistanês Tariq Ali e o escritor uruguaio Eduardo Galeano. O canal já foi criticado no congresso dos EUA, e também ganhou o apelido de Al Bolivar (junção de Al Jazeera e Simón Bolivar).

"A Telesur tem a mesma estrutura de qualquer grande TV. O diferente é a orientação editorial. Buscamos atores sociais que não são ouvidos em outras redes, como integrantes de movimentos sociais", explica Carlos Tautz. "Por que um especulador de Wall Street tem mais legitimidade para falar do que um líder social?", questiona.

Imparcialidade britânica
Garantido na presidência pelo menos até 2012, Hugo Chávez ainda tomará muitas decisões que influenciarão a imprensa venezuelana e do mundo. Fica lançado o desafio aos repórteres de lidar com uma figura sobre a qual é difícil não se posicionar. Nem que seja não tomar posição nenhuma. "Lamento, mas não vou responder", desculpa-se educadamente Steve Kingstone, repórter da rede pública inglesa BBC. "São perguntas políticas, e eu nem me permito analisar política"."

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Blogs contra a Disney

A primeira guerrilha da blogosfera


Por Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa:



"Esta é a primeira vez na curta história dos weblogs que um movimento internacional de solidariedade cria uma situação que alguns já classificam com a primeira guerrilha da era dos blogs.

Neste início de ano mais de 20 weblogs de diversas partes do mundo decidiram apoiar o seu colega Paul McNash, autor do blog Spocko´s Brain, especializado em crítica da mídia e que foi retirado da rede pelo seu hospedeiro por pressão da Disney Corporation, pouco antes do natal.

A empresa do Mickey Mouse reagiu à campanha do Spocko´s Brain contra o programa de entrevistas transmitido pela radio KSFO, uma afiliada da rede ABC controlada pela Disney. McNash foi acusado de violar os direitos autorais da radio ao gravar e reproduzir no seu blog comentarios onde os apresentadores apoiam abertamente a tortura como método para obter confissões de presos, simularam o enforcamnento do editor do The New York Times, Bill Keller, numa cadeira eletrica defeituosa, fazem piadas de mau gosto sobre o islamismo e propoem outros absurdos como amarrar baterias vendidas pela loja Sears aos testículos de descendentes de africanos.

A reprodução de dezenas de trechos de programas de entrevistas da KSFO pelo blog irritava a Disney mas esta só resolveu deflagrar uma guerra contra o Spocko´s Brain quando ele começou a mandar cartas para os anunciantes da emissora com o conteudo gravado. A reação de empresas como a a VISA, Mastercard, Bank of America e AT&T foi imediata, pois elas e mais dez outras, suspenderam as inserções publicitárias chocados com o teor das gravações.

A Disney resolveu atacar afirmando que o blog usava indevidamente material sonoro protegido por direito autoral. A justiça aceitou o pedido e ordenou que McNash tirasse do ar o audio das entrevistas, admitindo que toleraria a publicação de transcrições.

Mas o autor do Spocko´s Brain resolveu topar a briga no melhor estilo David contra Golias alegando que se tratava de material de interesse jornalístico e que a distinção entre áudio gravado e transcrição era uma idiotice completa, porque o conteudo era o mesmo.

O que parecia uma batalha perdida acabou dando origem a uma rebelião de blogueiros que passaram a reproduzir todas as gravações que a Disney impediu McNash de publicar. Até a noite de segunda feira (8/1) o material já havia sido publicado em blogs de Hong Kong, Arábia Saudita, Inglaterra, Suécia, Rússia e França.

A imediata notoriedade obtida pelo Spocko´s Brain lhe garantiu convites de pelo menos cinco provedores de acesso à internet interessados em hospedar o blog, que antes era praticamente desconhecido.

A grande impresa norte-americana está tratando o tema com luvas de pelica porque as consequências do caso são explosivas. Se a moda pega, vai crescer o patrulhamento dos programas tipo talk show onde a maioria dos apresentadores norte-americanos não esconde sua opção conservadora.

Acusando o golpe, a Disney resolveu não fazer mais comentários sobre o episódio tentando minimizar os efeitos da propaganda negativa. O Spocko´s Brain voltou a ser publicado no dia 6 de janeiro noutro provedor."

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Eleições OAB

Direita perde o controle da OAB


Da Carta Capital:


"No dia 31, uma eleição com candidato único formaliza a troca de comando do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Sai o catarinense Roberto Busato e entra no lugar dele o sergipano Cezar Britto. A oposição perdeu um dos mais importantes redutos na luta que travou, ao longo dos anos 2005 e 2006, para antecipar, pela via legal, o fim da era Lula. Via legal, mas não necessariamente legítima.

Britto, sobrinho do ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal, é um advogado trabalhista de 44 anos. Ele assume o posto máximo da entidade com posições progressistas. Fará, certamente, um contraponto ao perfil conservador de Busato, muito mais adequado, por sinal, à tradição da entidade que, em 1964, apoiou o golpe militar que derrubou João Goulart da Presidência da República.

O mais forte adversário de Britto seria Aristóteles Ateniense, atual vice-presidente. Ele anunciou, na última sessão da OAB, que estava fora da disputa. As derrotas que sofreu nas seccionais do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Piauí e Acre foram vitais para a decisão que tomou.

Na gestão Busato, a OAB agiu como se fosse a primeira pinça da estratégia da oposição ao avançar sobre o poder. Lá se discutiu oficialmente o pedido de impeachment de Lula. Os intrépidos advogados esbarraram, no entanto, na popularidade do presidente. E dali não passaram. A segunda pinça materializou-se nas ações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, a certa altura, propôs em tom de imposição que Lula deveria desistir da reeleição. O desfecho dessa história é conhecido. ".

Finalmente, um marco regulatório para o saneamento basico

Lei de Saneamento Básico é publicada no Diário Oficial

"A lei que estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico foi publicada hoje (8) no Diário Oficial da União. Além da universalização do acesso, ela prevê que o abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e o manejo dos resíduos sólidos sejam feitos de forma adequada à saúde pública e à proteção do meio ambiente.

De acordo com a Lei 11.445/07, as políticas públicas de saneamento básico deverão criar mecanismos de controle social, ou seja, formas de garantir à sociedade informações e participação no processo de formulação das medidas relacionadas ao setor.

Segundo o Ministério das Cidades, esse controle poderá ser feito por meio de conselhos municipais, estaduais e federal que terão caráter consultivo, mas poderão exercer pressão sobre assuntos ligados ao setor, como, por exemplo, a fixação das tarifas públicas.

A lei foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 5 de janeiro deste ano. Durante solenidade no Palácio do Planalto, o ministro das Cidades, Márcio Fortes, citou números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad-2005) para destacar que 82,32% dos 53 milhões de domicílios particulares no país têm acesso à água. ".
Fonte: Agência Brasil

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Rio: purgatório e caos.

E a cobertura dos ataques criminosos no Rio de Janeiro?
Desde que os bandidos desceram o morro e mostraram quem manda de verdade na cidade maravilhosa, o tema da segurança pública não sai das primeiras páginas dos jornais nem das manchetes da televisão.
É sempre assim. Cada vez que explode uma onda de violência, a sociedade clama por segurança.
A mídia, porta-voz da opinião pública, exige providências dos governantes - que, por sua vez, prometem ações enérgicas!
Os jornais publicam a opinião de especialistas no assunto.
A violência só incomoda quando desce o morro e afeta os turistas na Linha Vermelha do Rio.
"O turismo é fonte importante de receitas para o Rio, e, portanto, tudo o que o afeta cria uma emergência para o setor". Palavras de Clóvis Rossi na Folha de S.Paulo de hoje, expressando sua preocupação maior com o que acontece no Rio de Janeiro no momento.
O prolema, caros amigos, é que o Rio não pode perder as receitas do turismo. As vidas estão em segundo plano!
E os jornais noticiam a pauta de uma nota só: a Força Nacional de Segurança e as Forças Armadas irão às ruas!
Ninguém admite o óbvio. Não haverá paz enquanto a exclusão social empurrar crianças, adolescentes e jovens para o crime.

Overdose de Carlos Nascimento

Não sei vocês, mas não aguento mais ver e ouvir os comentários de Carlos Nascimento no SBT.

Promovido ao posto de estrela maior do jornalismo do SBT depois que Ana Paula Padrão abandonou o posto dizendo que "bancada é fim de carreira", Nascimento parece ter incorporado o espírito de Boris Casoy.

O cara não deixa passar uma oportunidade. Parece que quer superar os tempos de censura na Globo, antes que dê a louca em Sílvio Santos e o jornalismo do SBT vá para o espaço de novo - aí vai sobrar para o Hermano Henning outra vez, coitado!

O pior não é só a overdose de opinião de Nascimento. É a overdose da presença de Nascimento no vídeo. O cara tá em todas! Ele apresenta os dois telejornais noturnos da emissora. Mas não é só isso.

Assim que termina o Jornal do SBT, olha só o que vem em seguida: Mais Carlos Nascimento. É a reprise do Jornal do SBT.

Afff...

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Observatório da Imprensa publica artigo sobre concessões de TV's no RN

O site do Observatório da Imprensa publicou o artigo que escrevi sobre as concessões de TV's no RN.

Aí está o link do site: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=411IPB003

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Rodrigo Vianna desliga-se da Globo e, em e-mail a ex-colegas de redação, revela como a emissora do Jardim Botânico tentou manipular as eleições 2006

Leia a transcrição na íntegra da carta do repórter Rodrigo Vianna:
"Quando cheguei à TV Globo, em 1995, eu tinha mais cabelo, mais esperança, e também mais ilusões. Perdi boa parte do primeiro e das últimas. A esperança diminuiu, mas sobrevive. Esperança de fazer jornalismo que sirva pra transformar - ainda que de forma modesta e pontual. Infelizmente, está difícil continuar cumprindo esse compromisso aqui na Globo. Por isso, estou indo embora.

Quando entrei na TV Globo, os amigos, os antigos colegas de Faculdade, diziam: "você não vai agüentar nem um ano naquela TV que manipula eleições, fatos, cérebros". Agüentei doze anos. E vou dizer: costumava contar a meus amigos que na Globo fazíamos - sim - bom jornalismo. Havia, ao menos, um esforço nessa direção.

Na última década, em debates nas universidades, ou nas mesas de bar, a cada vez que me perguntavam sobre manipulação e controle político na Globo, eu costumava dizer: "olha, isso é coisa do passado; esse tempo ficou pra trás".

Isso não era só um discurso. Acompanhei de perto a chegada de Evandro Carlos de Andrade ao comando da TV, e a tentativa dele de profissionalizar nosso trabalho. Jornalismo comunitário, cobertura política - da qual participei de 98 a 2006. Matérias didáticas sobre o voto, sobre a democracia. Cobertura factual das eleições, debates. Pode parecer bobagem, mas tive orgulho de participar desse momento de virada no Jornalismo da Globo.

Parecia uma virada. Infelizmente, a cobertura das eleições de 2006 mostrou que eu havia me iludido. O que vivemos aqui entre setembro e outubro de 2006 não foi ficção. Aconteceu.

Pode ser que algum chefe queira fazer abaixo-assinado para provar que não aconteceu. Mas, é ruim, hem!

Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: "o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto".

Tudo isso aconteceu. E nem foi o pior.

Na reta final do primeiro turno, os "aloprados do PT" aprontaram; e aloprados na chefia do jornalismo global botaram por terra anos de esforço para construir um novo tipo de trabalho aqui.

Ao lado de um grupo de colegas, entrei na sala de nosso chefe em São Paulo, no dia 18 de setembro, para reclamar da cobertura e pedir equilíbrio nas matérias: "por que não vamos repercutir a matéria da "Istoé", mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os tucanos? Por que não vamos a Piracicaba, contar quem é Abel Pereira? "

Por que isso, por que aquilo... Nenhuma resposta convincente. E uma cobertura desastrosa. Será que acharam que ninguém ia perceber?

Quando, no JN, chamavam Gedimar e Valdebran de "petistas" e, ao mesmo tempo, falavam de Abel Pereira como empresário ligado a um ex-ministro do "governo anterior", acharam que ninguém ia achar estranho?

Faltando seis dias para o primeiro turno, o "petista" Humberto Costa foi indiciado pela PF. No caso dos vampiros. O fato foi parar em manchete no JN, e isso era normal. O anormal é que, no mesmo dia, esconderam o nome de Platão, ex-assessor do ministério na época de Serra/Barjas Negri. Os chefes sabiam da existência de Platão, pediram a produtores pra checar tudo sobre ele, mas preferiram não dar. Que jornalismo é esse, que poupa e defende Platão, mas detesta Freud! Deve haver uma explicação psicanalítica para jornalismo tão seletivo!

Ah, sim, Freud. Elio Gaspari chegou a pedir desculpas em nome dos jornalistas ao tal Freud Godoy. O cara pode ter muitos pecados. Mas, o que fizemos na véspera da eleição foi incrível: matéria mostrando as "suspeitas", e apontando o dedo para a sala onde ele trabalhava, bem próximo à sala do presidente... A mensagem era clara. Mas, quando a PF concluiu que não havia nada contra ele, o principal telejornal da Globo silenciou antes da eleição.

Não vi matérias mostrando as conexões de Platão com Serra, com os tucanos.

Também não vi (antes do primeiro turno) reportagens mostrando quem era Abel Pereira, quem era Barjas Negri, e quais eram as conexões deles com PSDB. Mas vi várias matérias ressaltando os personagens petistas do escândalo. E, vejam: ninguém na Redação queria poupar os petistas (eu cobri durante meses o caso Santo André; eram matérias desfavoráveis a Lula e ao PT, nunca achei que não devêssemos fazer; seria o fim da picada...).
O que pedíamos era isonomia. Durante duas semanas, às vésperas do primeiro turno, a Globo de São Paulo designou dois repórteres para acompanhar o caso dossiê: um em São Paulo, outro em Cuiabá. Mas, nada de Piracicaba, nada de Barjas.!
Um colega nosso chegou a produzir, de forma precária, por telefone (vejam, bem, por telefone! Uma TV como a Globo fazer reportagem por telefone), reportagem com perfil do Abel. Foi editada, gerada para o Rio. Nunca foi ao ar!Os telespectadores da Globo nunca viram Serra e os tucanos entregando ambulâncias cercados pelos deputados sanguessugas. Era o que estava na tal fita do "dossiê". Outras TVs mostraram o vídeo, a internet mostrou. A Globo, não. Provava alguma coisa contra Serra? Não. Ele não era obrigado a saber das falcatruas de deputados do baixo clero. Mas, por que demos o gabinete de Freud pertinho de Lula, e não demos Serra com sanguessugas?
E o caso gravíssimo das perguntas para o Serra? Ouvi, de pelo menos 3 pessoas diretamente envolvidas com o SP-TV Segunda Edição, que as perguntas para o Serra, na entrevista ao vivo no jornal, às vésperas do primeiro turno, foram rigorosamente selecionadas. Aquele diretor (aquele, vocês sabem quem) teria mandado cortar todas as perguntas "desagradáveis". A equipe do jornal ficou atônita. Entrevistas com os outros candidatos tinham sido duras, feitas com liberdade. Com o Serra, teria havido, deliberadamente, a intenção de amaciar.
E isso era um segredo de polichinelo. Muita gente ouviu essa história pelos corredores...
E as fotos da grana dos aloprados? Tínhamos que publicar? Claro. Mas, porque não demos a história completa? Os colegas que estavam na PF naquele dia (15 de setembro), tinham a gravação, mostrando as circunstâncias em que o delegado vazara as fotos. Justiça seja feita: sei que eles (repórter e produtor) queriam dar a matéria completa - as fotos, e as circunstâncias do vazamento. Podiam até proteger a fonte, mas escancarando o que são os bastidores de uma campanha no Brasil. Isso seria fazer jornalismo, expor as entranhas do poder.
Mais uma vez, fomos seletivos: as fotos mostradas com estardalhaço. A fita do delegado, essa sumiu!
Aquele diretor, aquele que controla cada palavra dos textos de política, disse que só tomou conhecimento do conteúdo da fita no dia seguinte. Quer que a gente acredite?
Por que nunca mostraram o conteúdo da fita do delegado no JN?
O JN levou um furo, foi isso?
Um colega nosso, aqui da Globo, ouviu a fita e botou no site pessoal dele... Mas, a Globo não pôs no ar... O portal "G-1" botou na íntegra a fita do delegado, dias depois de a "CartaCapital" ter dado o caso. Era noticia? Para o portal das Organizações Globo, era.
Por que o JN não deu no dia 29 de setembro? Levou um furo?Não. Furada foi a cobertura da eleição. Infelizmente. E, pra terminar, aquele episódio lamentável do abaixo-assinado, depois das matérias da "CartaCapital". Respeito os colegas que assinaram. Alguns assinaram por medo, outros por convicção. Mas, o fato é que foi um abaixo-assinado em defesa da Globo, apresentado por chefes!

Pensem bem. Imaginem a seguinte hipótese: a revista "Quatro Rodas" dá matéria falando mal da suspensão de um carro da Volkswagen, acusando a empresa de deliberadamente não tomar conhecimento dos problemas. Aí, como resposta, os diretores da Volks têm a brilhante idéia de pedir aos metalúrgicos pra assinar um manifesto em defesa da empresa! O que vocês acham? Os metalúrgicos mandariam a direção da fábrica catar coquinho em Berlim!

Aqui, na Globo, muitos preferiram assinar. Por isso, talvez, tenhamos um metalúrgico na Presidência da República, enquanto os jornalistas ficaram falando sozinhos nessa eleição...

De resto, está difícil continuar fazendo jornalismo numa emissora que obriga repórteres a chamarem negros de "pretos e pardos". Vocês já viram isso no ar? Sinto vergonha...

A justificativa: IBGE (e, portanto, o Estado brasileiro) usa essa nomenclatura. Problema do IBGE. Eu me recuso a entrar nessa. Delegados de policia (representantes do Estado) costumavam (até bem pouco tempo) tratar companheiras (mesmo em relações estáveis) como "concubinas" ou "amásias". Nunca usamos esses termos!

Árabes que chegaram ao Brasil no início do século passado eram chamados de "turcos" pelas autoridades (o passaporte era do Império Turco Otomano, por isso a nomenclatura). Por causa disso, jornalistas deviam chamar libaneses de turcos?Daqui a pouco, a Globo vai pedir para que chamemos a Parada Gay de "Parada dos Pederastas". Francamente, não tenho mais estômago.

Mas, também, o que esperar de uma Redação que é dirigida por alguém que defende a cobertura feita pela Globo na época das Diretas?

Respeito a imensa maioria dos colegas que ficam aqui. Tenho certeza que vão continuar se esforçando pra fazer bom Jornalismo. Não será fácil a tarefa de vocês.Olhem no ar. Ouçam os comentaristas. As poucas vozes dissonantes sumiram. Franklin Martins foi afastado. Do Bom dia Brasil ao JG, temos um desfile de gente que está do mesmo lado.

Mas sabem o que me deixou preocupado mesmo? O texto do João Roberto Marinho depois das eleições.

Ele comemorou a reação (dando a entender que foi absolutamente espontânea; será que disseram isso pra ele? Será que não contaram a ele do mal-estar na Redação de São Paulo?) de jornalistas em defesa da cobertura da Globo:"(...)diante de calúnias e infâmias, reagem, não com dúvidas ou incertezas, mas com repúdio e indignação. Chamo isso de lealdade e confiança".

Entendi. Ele comemora que não haja dúvidas e incertezas... Faz sentido. Incerteza atrapalha fechamento de jornal. Incerteza e dúvida são palavras terríveis. Devem ser banidas. Como qualquer um que diga que há racismo - sim - no Brasil. E vejam o vocabulário: "lealdade e confiança". Organizações ainda hoje bem populares na Itália costumam usar esse jargão da "lealdade".

Caro João, você talvez nem saiba direito quem eu sou.

Mas, gostaria de dizer a você que lealdade devemos ter com princípios, e com a sociedade. A Globo, infelizmente, não foi "leal" com o público. Nem com os jornalistas.Vai pagar o preço por isso. É saudável que pague. Em nome da democracia!

João, da família Marinho, disse mais no brilhante comunicado interno:"Pude ter certeza absoluta de que os colaboradores da Rede Globo sabem que podem e devem discordar das decisões editoriais no trabalho cotidiano que levam à feitura de nossos telejornais, porque o bom jornalismo é sempre resultado de muitas cabeças pensando".
Caro João, em que planeta você vive? Várias cabeças? Nunca, nem na ditadura (dizem-me os companheiros mais antigos) tivemos na Globo um jornalismo tão centralizado, a tal ponto que os repórteres trabalham mais como bonecos de ventríloquos, especialmente na cobertura política!Cumpro agora um dever de lealdade: informo-lhe que, passadas as eleições, quem discordou da linha editorial da casa foi posto na "geladeira". Foi lamentável, caro João. Você devia saber como anda o ânimo da Redação - especialmente em São Paulo.

Boa parte dos seus "colaboradores" (você, João, aprendeu direitinho o vocabulário ideológico dos consultores e tecnocratas - "colaboradores", essa é boa... Eu não sou colaborador, coisa nenhuma! Sou jornalista!) está triste e ressabiada com o que se passou.

Mas isso tudo tem pouca importância.

Grave mesmo é a tela da Globo - no Jornalismo, especialmente - não refletir a diversidade social e política brasileira. Nos anos 90, houve um ensaio, um movimento em direção à pluralidade. Já abortado. Será que a opção é consciente?Isso me lembra a Igreja Católica, que sob Ratzinger preferiu expurgar o braço progressista. Fez uma opção deliberada: preferiram ficar menores, porém mais coesos ideologicamente. Foi essa a opção de Ratzinger. Será essa a opção dos Marinho?

Depois, não sabem por que os protestantes crescem...

Eu, que não sou católico nem protestante, fico apenas preocupado por ver uma concessão pública ser usada dessa maneira!

Mas essa é também uma carta de despedida, sentimental.

Por isso, peço licença pra falar de lembranças pessoais.

Foram quase doze anos de Globo.

Quando entrei na TV, em 95, lá na antiga sede da praça Marechal, havia a Toninha - nossa mendiga de estimação, debaixo do viaduto. Os berros que ela dava em frente à entrada da TV traziam uma dimensão humana ao ambiente, lembravam-nos da fragilidade de todos nós, de como nossa razão pode ser frágil.Havia o João Paulada - o faz-tudo da Redação.

Havia a moça do cafezinho (feito no coador, e entregue em garrafas térmicas), a tia dos doces...

Era um ambiente mais caseiro, menos pomposo. Hoje, na hora de dizer tchau, sinto saudade de tudo aquilo.

Havia bares sujos, pessoas simples circulando em volta de todos nós - nas ruas, no Metrô, na padaria.

Todos, do apresentador ao contínuo, tinham que entrar a pé na Redação. Estacionamentos eram externos (não havia "vallet park", nem catraca eletrônica). A caminhada pelas calçadas do centro da cidade obrigava-nos a um salutar contato com a desigualdade brasileira.

Hoje, quando olho pra nossa Redação aqui na Berrini, tenho a impressão que estou numa agência de publicidade. Ambiente asséptico, higienizado. Confortável, é verdade. Mas triste, quase desumano.

Mas há as pessoas. Essas valem a pena.

Pra quem conseguiu chegar até o fim dessa longa carta, preciso dizer duas coisas...

1) Sinto-me aliviado por ficar longe de determinados personagens, pretensiosos e arrogantes, que exigem "lealdade"; parecem "poderosos chefões" falando com seus seguidores... Se depender de mim, como aconteceu na eleição, vão ficar falando sozinhos.

2) Mas, de meus colegas, da imensa maioria, vou sentir saudades.Saudades das equipes na rua - UPJs que foram professores; cinegrafistas que foram companheiros; esses sim (todos) leais ao Jornalismo.

Saudades dos editores - que tiveram paciência com esse repórter aflito e procuraram ser leais às minúcias factuais.

Saudades dos produtores e dos chefes de reportagem - acho que fui leal com as pautas de vocês e (bem menos) com os horários!

Saudades de cada companheiro do apoio e da técnica - sempre leais.

Saudades especialmente, das grandes matérias no Globo Repórter - com aquela equipe de mestres (no Rio e em São Paulo) que aos poucos vai se desmontando, sem lealdade nem respeito com quem fez história (mas há bravos resistentes ainda).

Bem, pelo tom um tanto ácido dessa carta pode não parecer. Mas levo muita coisa boa daqui.

Perdi cabelos e ilusões. Mas, não a esperança.

Um beijo a todos.
Rodrigo Vianna. "
E agora, José? Quando se falava que a mídia, especialmente a Globo, arquitetava um "golpe branco" nos bastidores, logo vinham as "vozes da razão" dizendo que isso era mania de perseguição, "teoria da conspiração" inventada para que a população não acreditasse nas denúncias que a mídia repercutia contra o Governo Lula. Agora, Rodrigo Vianna botou a boca no trombone e todos ficamos sabendo como as coisas de fato acontecem por lá. É claro que vão tentar desqualificar o que ele disse, sob o pretexto de que a carta só foi escrita após o repórter saber que sairia da emissora.Vão querer tapar o sol com a peneira. Mas não adianta. A farsa midiática veio à tona. Mas ainda há muita coisa que precisa ser desmascarada na mídia, a grande "indústria de manipulação das consciências", nas palavras de José Arbex Jr. Aos que não acreditam, continuem lendo Veja e Diogo Mainardi.

sábado, 9 de dezembro de 2006

A caixa-preta da televisão brasileira

Vivemos mesmo no país do faz de conta. As leis existem, mas sempre há um espertinho de plantão que escorrega pela tangente e consegue burlar as normas vigentes. Na quarta-feira, 7 de dezembro, Ricardo Noblat publicou em seu blog que 31 dos 51 deputados federais investigados sob acusação de serem donos de emissoras de rádio e TV foram reeleitos.

A questão das concessões de rádio e televisão é um tabu que ilustra na medida certa o faz de conta encenado cotidianamente no Brasil.

A Constituição brasileira proíbe que políticos sejam concessionários de emissoras de rádios e TV’s. Mas até mesmo as paredes do Ministério das Comunicações em Brasília sabem que o que mais há em solo tupiniquim é político com emissora de rádio e televisão. E aí, cara pálida?

No Rio Grande do Norte, todas emissoras locais de TV estão nas mãos de políticos. A Intertv Cabugi, retransmissora da TV Globo, pertence à família do senador Garibaldi Alves Filho (PMDB) e do deputado federal Henrique Eduardo Alves (PMDB).

A TV Ponta Negra, retransmissora do SBT, é propriedade da família da vice-prefeita de Natal e deputada estadual eleita Micarla de Souza (PV-RN), filha do falecido Carlos Alberto de Souza, ex-senador potiguar – fundador do Sistema Ponta Negra de Comunicação.

A TV Tropical, retransmissora da Rede Record, é do senador José Agripino Maia (PFL-RN), candidato à Presidência do Senado, que nos últimos quatro anos ficou conhecido nacionalmente como paladino defensor da moral e da ética na política brasileira.

Ainda há a TV Potengi, retransmissora da TV Bandeirantes, que é controlada pelo ex-senador Geraldo Melo (PSDB-RN).

Para mim, o caso da TV Tropical é o mais emblemático. Todos ali trabalham para satisfazer a vontade do chefe (Agripino). Diariamente, os discursos que o senador profere em Brasília são transmitidos na íntegra em pelo menos um dos telejornais da sua emissora.

Em julho deste ano, enviei e-mail à TV Tropical para protestar contra o desvirtuamento no uso de uma concessão pública de televisão, caracterizado pela transmissão dos referidos discursos, que sempre se destinaram a cumprir fins eleitoreiros.

Reproduzo aqui um trecho do e-mail: “Considero que as questões sobre a linha editorial política da TV Tropical são muito importantes para entendermos o que há por trás da notícia que o referido veículo leva ao cidadão. Principalmente, repito, pelo fato de se tratar de uma concessão pública, que deveria ter em conta o interesse público. A transmissão quase diária dos pronunciamentos do proprietário da TV e senador José Agripino serve ao interesse de quem? Como observa a professora da USP e filósofa Marilena Chauí, estamos nos movendo num campo público de interesses, mas que é regido por interesses privados e políticos.

O cidadão comum tem que ficar em casa resignado e mudo, pois não tem como manifestar sua insatisfação com o tratamento que os grandes veículos de comunicação dão aos fatos (quando há fatos). Isso, obviamente, não acontece apenas na TV Tropical. Observo o mesmo padrão nas outras emissoras locais, que, sem nenhuma exceção, atrelam o seu conteúdo aos interesses dos grupos políticos que as controlam. Por isso, é extremamente importante tratar da necessidade de democratização dos meios de comunicação. Penso que se isso não for levado em consideração, a essência desse debate vai por água abaixo”.

Recebi uma promessa de que meus argumentos seriam levados a público, mas ficou só na promessa mesmo. Nenhum político toca nesse assunto porque isso representaria a perda de um poder que ninguém abre mão.

Experimente perguntar ao senador Agripino quando é que vence a concessão da sua TV Tropical. Aliás, tente ao menos saber no nome de quem está o contrato. Caso esteja no nome do senador, trata-se de um crime. Caso esteja no nome de outra pessoa qualquer, trata-se de um engodo para driblar a lei. O dono da TV Tropical é José Agripino.

O pior é que não há nenhum sinal de que isso irá mudar. Na terça-feira, 6 de dezembro, a Câmara Federal aprovou a outorga e a renovação das concessões de 58 emissoras de rádio e TV comerciais e de 77 educativas ou comunitárias. A votação foi feita em bloco - 135 processos foram chancelados de uma só vez. Não se sabe quem são os titulares dessas concessões. A caixa-preta da televisão brasileira continua inviolável!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

61% da bancada investigada por controlar emissoras se reelege

Posto aqui notícia da quarta-feira 07/12, que vi no blog do Noblat. Estou preparando um artigo sobre o assunto para breve. Segue a notícia:
"Nas eleições deste ano, conseguiram se reeleger 31 dos 51 deputados federais investigados sob acusação de serem donos de emissoras de rádio e TV. Onze deles ficaram entre os cinco mais votados em seus Estados. O índice de reeleição entre os proprietários de meios de comunicação eletrônicos, que atingiu 61%, foi muito superior ao geral da Câmara, de 51% - indicação de que ter emissora pode significar vantagem eleitoral."

"A Câmara aprovou a outorga e a renovação das concessões de 58 emissoras de rádio e TV comerciais e de 77 educativas ou comunitárias. A votação foi feita em bloco - 135 processos foram chancelados de uma só vez. Deputados reclamam que nem o relator tem acesso a informações sobre o titular da concessão; não dá para saber se pertence a um parlamentar ou se cumpre as obrigações trabalhistas, por exemplo. Os processos são instruídos apenas por um relatório do Ministério das Comunicações."

Número de jornalistas presos é recorde

Da Folha de S.Paulo, hoje:
"O número de jornalistas presos em todo mundo em razão de seu trabalho aumentou pelo segundo ano consecutivo, afirmou ontem a ONG americana Comitê de Proteção a Jornalistas. Segundo o levantamento, 134 jornalistas estavam presos no dia 1º de dezembro -nove a mais do que em 2005 -em 24 países. Bloggers e repórteres on-line são um terço do total. Os quatro países que mais prendem jornalistas são China, Cuba, Eritréia e Etiópia."

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Frase do dia

"Bancada é fim de carreira", diz Ana Paula Padrão"

A essência do jornalismo é a reportagem. No Brasil há uma inversão, uma glamurização da bancada, mas ela é vista em muitos lugares como fim de carreira", disse ontem Ana Paula Padrão em entrevista coletiva para anunciar sua saída do "SBT Brasil". Alguns ficaram incomodados no SBT com o comentário dela. Ana Paula também admitiu que ficou frustada com as mudanças de horário de seu telejornal.
Folha

terça-feira, 21 de novembro de 2006

O negro e o pedestre

De Clovis Rossi na Folha de S.Paulo, domingo, 19/11/2006:


"Fui quase a vida toda como 90% (ou mais?) dos motoristas brasileiros. Via no pedestre um estorvo a ser ultrapassado, jamais um ser com direitos até maiores, por estar "desarmado".


Só depois de dirigir umas quantas vezes na Europa, comecei a mudar (menos do que deveria, mas mudar, de todo modo). Lá, o rei é o pedestre. E o é menos por coerção legal ou policial e mais por imposição social. Lá, o motorista corre o risco de ser linchado (no mínimo, no mínimo, com um olhar, um palavrão ou um gesto tão eloqüente que dispensa palavras) se desrespeitar o direito de o pedestre cruzar primeiro a rua. Aqui, é o pedestre que corre o risco de ser atropelado se desafiar o motorizado.


Depois de dirigir na Europa, pavloviano como sou, passei a aplicar aqui as regras de lá. O resultado é absurdamente surpreendente: cansei de receber mesuras exageradas de agradecimento, sempre que deixava um pedestre cruzar tranqüilamente a rua. Fica claro que o pedestre brasileiro acha que eu estou fazendo um favor a ele, em vez de estar simplesmente respeitando um direito dele. Afinal, a faixa é "de pedestre", não de motorista, certo?


Dá a nítida sensação de que a coerção social, aqui, é a inversa: quem pode faz o que bem entende; quem não pode agradece quando o que pode faz o que deveria ser obrigação básica de civilidade. O direito vira concessão.


Conto tudo isso porque desconfio que é essa inversão a responsável, ao menos em parte, pela constatação feita na manchete de ontem desta Folha, segundo a qual a distância salarial entre brancos e negros é tanto maior quanto maior o nível de escolarização.


Ou seja, a "elite branca e má" (conforme Cláudio Lembo) atropela o "pedestre" até quando ele trafega na sua faixa (de escolaridade). Mais que preconceito, são vícios culturais arraigados."

Cresce número de negros nas universidades

De 1995 a 2005, percentual de negros e pardos no ensino superior aumentou de 18% para 30%, revela pesquisa do IBGE.


Inclusão foi maior a partir de 2001. Nos últimos cinco anos, entraram mais negros que brancos na rede pública; eqüidade chegará em 2015.

De ANTÔNIO GOIS na Folha de S.Paulo, segunda-feira, 20 de novembro:


"A desigualdade no acesso à educação entre negros e brancos no Brasil já foi comparada ao eletrocardiograma de um morto. Parecia imutável, dada a distância quase intransponível que separava esses dois grupos ao longo de quase um século. A mais recente Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE revela, no entanto, um dado alentador: na última década, o percentual de brasileiros que se declaram negros ou pardos no ensino superior subiu de 18% para 30%.


Dados dessa pesquisa tabulados pela Folha mostram que esse crescimento aconteceu principalmente a partir de 2001, quando o percentual era de 22%. De lá até 2005, a participação de negros e pardos cresceu a um ritmo médio de dois pontos percentuais ao ano. Se continuar assim, o Brasil chegará a 2015 com uma participação desses grupos na universidade compatível com a presença deles na população, que hoje é de 49%. Para um país em que até bem pouco tempo não via luz no fim desse túnel, não é pouca coisa.


O crescimento aconteceu tanto na rede pública quanto na particular. Ainda que tenha sido maior nesta última, na pública foi verificado um dado significativo: de 2001 a 2005, entraram mais negros e pardos (125 mil novos alunos) do que brancos (72 mil).Três hipóteses podem ser apontadas para explicar o aumento. A primeira é que, nos últimos dez anos, o sistema de ensino superior cresceu 174%.


A segunda é que foi a partir de 2001, ano da Conferência das Nações Unidas contra o Racismo, que universidades públicas, por iniciativa própria ou de governos estaduais, passaram a adotar políticas de ações afirmativas. Por último, desde 2005, o governo oferece bolsas em particulares preferencialmente para negros via ProUni.


Na avaliação de Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE e presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, o fator que mais contribuiu foi o crescimento das matrículas. Ele lembra que isso ocorreu também no ensino médio. Com isso, mais alunos se tornaram aptos a disputar mais vagas oferecidas principalmente pelo setor privado.


Para ele, as cotas explicam pouco a inclusão porque o ensino superior incorporaria esses alunos mesmo sem elas.


O economista da UFRJ Marcelo Paixão, coordenador do Observatório Afro-Brasileiro, concorda que a expansão das matrículas em todo os níveis foi fundamental. Ele discorda de Schwartzman, no entanto, ao defender que as políticas de ação afirmativas de cunho racial continuam sendo necessárias."Os dados da Pnad não permitem que a gente verifique como está a participação dos negros em cada curso, mas sabemos que há uma diferença enorme no acesso aos mais concorridos", diz Paixão.


De fato, pela Pnad não é possível verificar a participação em cada curso, mas isso pode ser avaliado pelo questionário socioeconômico do provão e de seu substituto, o Enade.Em 2003, esses dados mostravam que nos cursos de matemática, letras, pedagogia, história e geografia, o percentual de concluintes negros e pardos era sempre superior a 30%, chegando a 40% nesses dois últimos. No outro extremo, essa proporção era sempre inferior a 16% nas carreiras de direito, medicina, engenharia mecânica, odontologia e arquitetura, sendo o menor percentual nesta última (11%)."

No editorial da Folha de S.Paulo de hoje (21/11), o jornal manifesta aprovação às políticas afirmativas, mas condena as cotas. Segundo a Folha, as cotas raciais reforçam o preconceito e desconsideram o mérito acadêmico. A Folha defende políticas afirmativas focadas na desigualdade social, não racial.

A Folha desconsidera que os mais atingidos pela desiguldade social são justamente os negros.

Aqui mesmo em Natal, o Cefet já adota a política de reservar 5o% das vagas para alunos egressos de escolas públicas - que são, na sua maioria, negros, mulatos e mestiços.

Nada mais justo, tendo em vista que a maioria dessas vagas sempre ficava com aqueles que podiam pagar escolas particulares.

Parada Negra reúne 12 mil em São Paulo

De AFRA BALAZINA na Folha de S.Paulo, hoje:

"Uma parada e uma marcha reuniram ontem à tarde cerca de 12 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, em comemoração do Dia da Consciência Negra, em São Paulo. A concentração foi no vão livre do Masp, e os manifestantes percorreram parte das avenidas Paulista e Brigadeiro Luís Antonio. A mobilização acabou na Assembléia Legislativa após cerca de duas horas de caminhada.Em 2005, não houve parada, e a marcha reuniu cerca de 1.500 pessoas. As organizações da Parada e da Marcha Negra disseram acreditar que 25 mil pessoas tenham participado da ação neste ano. A expectativa inicial era reunir 10 mil manifestantes. "Queremos mostrar que o povo negro de São Paulo não aceita mais discriminação racial", disse Dojival Vieira, do Movimento Brasil Afirmativo.
Na opinião de Flávio Jorge Rodrigues da Silva, da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), a meta foi atingida. "Em razão do feriado, conseguimos trazer mais do que os militantes do movimento negro. Trouxemos as famílias, os vizinhos", afirmou.O feriado ocorreu também em outras 11 cidades do Estado de São Paulo e em mais 219 municípios brasileiros.
O dia é uma homenagem a um dos símbolos da resistência negra no país: Zumbi de Palmares. Em 20 de novembro de 1695, o líder do quilombo foi assassinado.
Entre as reivindicações do grupo estão a melhoria da escola pública e a adoção de cotas para negros em universidades, além da votação do Estatuto da Igualdade Racial.
O corredor Oscar de Moraes, conselheiro do parque da Independência, foi do Ipiranga (zona sul) à Paulista correndo. Depois, enquanto os manifestantes caminhavam, ele trotava na frente. "Fiz esse esforço para prestigiar a união do povo negro", disse.
À frente da marcha havia mulheres vestidas como baianas. Pequenos grupos tocavam instrumentos, jogavam capoeira e dançavam.
Conscientização
Foi a primeira vez que Célia Cipriano, proprietária de um escritório de contabilidade, integrou a marcha. "Acho que é importante para conscientizar a nós mesmos [negros] de que precisamos sempre lutar e não desistir nunca", afirmou.Paulistanos de diversas raças, além de estrangeiros, engrossaram a marcha.
"Vim prestar uma homenagem porque só tenho a agradecer à cultura negra", disse o produtor editorial Matias Constantino de Oliveira, 22, que é branco. "Sempre fui a favor do movimento negro. Resolvi aderir", disse a dona-de-casa Odelma Pereira da Silva, 59, também branca.
Emir Mourad, da Confederação Árabe Palestina, compareceu. "Somos contra qualquer forma de preconceito racial e étnico e queremos prestar solidariedade à população negra."Até a holandesa Marianne Jansen acompanhou a marcha. "Não temos esse tipo de manifestação em meu país. Um amigo brasileiro me trouxe e achei muito bonito", disse."

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

EUA ameaçam a Nicarágua

A eleição de Daniel Ortega para presidente da Nicarágua está tirando o sono de George W. Bush. O "Senhor da Guerra" já mandou avisar que se Ortega for mesmo eleito, os EUA adotarão retaliações duras.

Muito interessante esta forma americana de patrocinar a democracia no mundo.

Invadem o Afeganistão sob o pretexto de libertar o país do regime talibã e promover a democracia.

Depois, resolvem premiar o Iraque com uma invasão. E pra quê? Claro, pra instaurar a democracia, derrubando o ditador Sadam Russein do poder.

Mas também atuaram pra derrubar Hugo Chavez, eleito democraticamente, na Venezuela.

E agora, prometem agir contra a Nicarágua, caso o povo daquele país decida eleger Ortega.

Viva a democracia americana!

Por quê será que é tão difícil pra Washington conviver com sistemas de governos diferentes da cartilha americana?

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

A raiva do PT contra a mídia

Artido de Gilberto Dimenstein na Folha Online:


"Lula eleito, militantes do PT apontaram, esfuziantes, que os meios de comunicação estavam entre os derrotados; alguns deles chegaram mesmo a hostilizar raivosamente os jornalistas. Refletem as reclamações de Lula e de muitos de seus assessores. Interessante essa manifestação: tantos anos depois de neutralizados os militares, ainda não se tem claro, em vários setores, o papel da imprensa. O que só revela um cacoete autoritário.
Não vou negar que algumas reportagens e mesmo veículos de comunicação cometeram erros e exageros. Mas, no geral, os jornalistas fizeram o que tinham mesmo de fazer: vasculhar e incomodar o poder. E o fato é que o PT deu motivos de sobras para ser vasculhado na questão ética e administrativa.
Na oposição, o PT foi um beneficiário dessa atitude dos meios de comunicação. Muitos de seus dirigentes, a começar de Lula, estavam sempre à frente dos ataques contra os deslizes e roubalheiras. O PT cresceu, entre outras razões, porque vendeu a imagem (até certo ponto correta, vamos reconhecer) de limpeza, mas depois, no poder, não soube separar o público do privado.
É fundamental que os dirigentes do partido e seus representantes do governo sejam responsáveis e não permitam que se desmoralize ou se afete a importância da liberdade de imprensa."

terça-feira, 31 de outubro de 2006

A VITÓRIA DE LULA FOI IDEOLÓGICA

Artigo de Paulo Henrique Amorim no site Conversa Afiada:


". A vitória de Lula foi uma vitória ideológica. Assim como muita gente tem medo de usar a palavra “impeachment” quando quer o “impeachment”, muita gente está com medo de usar a palavra “ideologia”, que também começa com “i” e nele se pode botar um pingo.
. Pela primeira vez na historia do ciclo “pós militar”, a ideologia trabalhista venceu a ideologia conservadora de forma clara e, como diz o New York Times, de forma “esmagadora” (como é chic citar o New York Times...).
. Lula chega ao segundo mandato muito mais forte do que chegou ao primeiro.
. E chega com uma vitória claramente pela esquerda: com a opção preferencial pelos pobres.
(Não fosse ele um bom católico).
. No segundo turno, Lula levou a discussão para a esquerda e empunhou uma bandeira típica da esquerda brasileira, do getulismo, do brizolismo: a do combate à privatização.
. Como diria a professora Marilena Chauí, Lula se lembrou que é de esquerda.
. Na batalha universal entre trabalhistas e conservadores – e essa é uma mudança na qualidade da política brasileira – e mudança para melhor – na batalha universal entre direita e esquerda, ganhou a esquerda.
. E FHC, se calçasse as sandálias da humildade, deveria ir pra casa e perguntar: como é que eu faço para o meu “pólo de poder” se aproximar do povo?
. O PSDB se tornou um fenômeno paulista.
. O PSDB de São Paulo está isolado ideologicamente. E geograficamente.
. São Paulo precisa voltar para dentro do Brasil.
. O PSDB não existe no Rio nem no Nordeste.
. O PSDB precisa voltar a entender de Brasil, fora de São Paulo.
. Aécio Neves não é o PSDB de São Paulo. Ele sabe que se cair na armadilha da UDN de São Paulo, não chega a Presidente nunca.
. Yeda Crusius não tem saída: ou ela se entende com o Governo Lula, ou o Rio Grande do Sul não sai da crise econômica. E ela faz um Governo igual ao de Rigotto, que nem foi para o segundo turno.
. Ou o PSDB entende que os freqüentadores da Praça Buenos Aires não são o povo brasileiro ou vai virar o PFDB, como diz o Maurício Dias, e não passa dos 39%."

Thaisa Galvão faz sucesso com blog jornalístico

O blog da jornalista Thaisa Galvão virou uma verdadeira febre. Na região do Auto-Oeste, o blog é a principal fonte de informação sobre a política do RN.
No último sábado 28, quase 7 da noite, desembarco na rodoviária de Pau dos Ferros, vindo de Mossoró, para esperar o ônibus que me levaria para Alexandria. Alguns passageiros assistiam a novela das 7 enquanto esperavam a sua vez de embarcar. Foi quando caiu a ficha e percebi que a InterTV Cabugi havia voltado ao ar, depois de cumprir a determinação da Justiça Eleitoral e ficar 24 horas sem transmitir sua programação.
Pergunto ao senhor que trabalha na rodoviária sobre a divulgação da última pesquisa Ibope para o Governo do RN. Ele informa que o RN TV 2ª Edição havia divulgado o resultado, mas que desde às 4 da tarde já conhecia os números através do blog de Thaisa Galvão.
Prontamente, o senhor passa às minhas mãos a nota impressa sobre a pesquisa que Thaisa havia postado em seu blog. Mostrava o papel a quem se aproximasse.
Thaisa Galvão tem pautado todas as conversas sobre política nas rodas do interior do RN, principalmente pelas bandas da tromba do elefante.

Frase do dia

"Poucos jornalistas conseguem manter o sentimento de solidariedade com o povo brasileiro"
(Mauro Santayana, jornalista que foi colaborador do presidente Tancredo Neves, em entrevista a Paulo Henrique Amorim nesta terça-feira, dia 31, no Conversa Afiada).